O Gosto Amargo da Esperança
Dentro de sua casa de pau-a-pique, o silêncio de Mariana era interrompido apenas pelo som das lágrimas. Sentada na beira da cama, ela via seus sonhos de trazer os filhos de volta de Belém desmoronarem como as margens do rio após a cheia. A imagem das crianças mortas na água contaminada não saía de sua mente; o mangue, que antes era seu sustento, agora exalava o cheiro da morte. Ela sabia que precisava fugir, ou o veneno invisível a encontraria também.
Sua mão mergulhou no bolso e encontrou o cartão preto. A bússola dourada brilhava sob a luz fraca da lamparina. No verso, o endereço no centro de Curuçá e uma pergunta que parecia pulsar: "Você aceita o meu jogo?". Mariana apertou o papel entre os dedos, o coração acelerado.
— Eu aceito — sussurrou para as paredes de barro, como se selasse um pacto.
No dia seguinte, o centro da cidade fervilhava com a notícia: um caminhão carregando compostos químicos letais havia tombado, condenando o rio e todos que dele dependiam. Mariana caminhou entre becos e ruas estreitas até encontrar o endereço. O calor do Pará era intenso, mas, ao parar diante da casa indicada, um calafrio inexplicável percorreu sua espinha.
Era uma construção simples, mas algo ali parecia "fora do lugar". Quando ela bateu palmas, o portão estalou e abriu-se sozinho, como se a estivesse esperando. No quintal deserto, o silêncio era absoluto. Ao tocar a porta principal, ela cedeu sem esforço, fazendo Mariana recuar em um salto.
— Entre, Mariana. Não tenha medo — a voz ecoou do fundo da casa.
Lá estava ele: o velho do mangue. Assim que ela deu o primeiro passo para dentro, a porta se fechou às suas costas com um clique metálico e seco.
— Não se assuste. Meu sistema de segurança é genial, não acha? — Ele sorriu, mas o brilho em seus olhos era indecifrável. — Sente-se. Meu nome é José da Silva, mas pode me chamar de Zé da Mula.
— Por que eu estou aqui? — Mariana perguntou, a voz firme apesar do tremor nas mãos.
— Pelo motivo de sempre: sobrevivência. Você quer dinheiro, e eu sei como transformar sua pobreza em uma fortuna que você sequer consegue imaginar. Meio bilhão de reais, Mariana. É o que está em jogo.
O número flutuou no ar como uma miragem. José ofereceu-lhe um copo de água. A sede e o calor a fizeram virar o líquido de uma vez.
— Que tipo de jogo é esse? — ela questionou, sentindo a garganta secar estranhamente.
— Você fará parte de um grupo. Terá que chegar ao prêmio antes dos outros — José explicou, enquanto sua imagem começava a embaçar diante dos olhos dela.
Subitamente, o chão pareceu inclinar-se. Uma dormência pesada subiu pelas pernas de Mariana, e suas pálpebras tornaram-se de chumbo. Ela tentou se levantar, mas os músculos não responderam. O sorriso de José tornou-se a última coisa que ela viu: um gesto sarcástico e vitorioso.
— Você verá com seus próprios olhos... — a voz dele parecia vir de dentro de um túnel. — Bem-vinda ao jogo, Mariana.
Antes que o corpo dela atingisse o chão, dois homens de porte atlético surgiram das sombras, segurando-a. Mariana apagou completamente enquanto era carregada para um furgão escuro, partindo rumo ao desconhecido.
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