O Preço da Promessa



Os dias no hospital de Pokka passavam como um rastro de gelo: lentos e dolorosos. A angústia de Emmi crescia a cada bip dos monitores que mantinham Mark vivo. O veredito dos médicos era unânime: ele precisava de um centro especializado em Helsinque, mas o mundo de 2077 não oferecia caridade. As faturas acumulavam-se sobre a mesa de cabeceira como uma sentença; os 200 euros iniciais transformaram-se em uma dívida asfixiante de mais de 3.000, um valor astronômico para quem sobrevivia catando lenha na neve.

O desespero, enfim, quebrou a última resistência de Emmi. No silêncio do quarto, ela retirou o cartão preto do bolso. A bússola dourada parecia ser a única luz em um futuro sombrio. Ela aproximou-se do irmão, depositando um beijo demorado em sua testa gélida.

— Eu vou voltar para te buscar, Mark. Você vai melhorar, eu prometo — sussurrou, selando um pacto que mudaria sua vida para sempre.

Ao deixar o hospital, o ar de Pokka parecia mais cortante do que o normal. Ela seguiu o endereço até uma casa de aparência comum, camuflada entre a bruma do vilarejo. Antes que pudesse bater, uma silhueta destacou-se das sombras de uma árvore morta.

— Eu sabia que você viria — a voz de Nia era firme, despida do disfarce de enfermeira.

Emmi estremeceu, não apenas pelo frio, mas pela precisão com que Nia a aguardava. Dentro da casa, o ambiente era impessoal, desprovido de alma.

— Você realmente mora aqui? — perguntou Emmi, os olhos vasculhando os cômodos vazios.

— Você é observadora — Nia sorriu, indicando o sofá. — Mas não, este lugar é apenas um cenário temporário. Logo estarei longe daqui.

— A oferta que você mencionou... — Emmi foi direta, a urgência queimando em sua garganta. — Do que se trata?

Nia inclinou-se para frente, a expressão tornando-se magnética. — É um jogo, Emmi. Um jogo onde a vitória vale meio bilhão de euros. Limpos. Sem perguntas.

— Meio bilhão? — O número ecoou como um trovão na mente da jovem. — Que tipo de jogo exige esse pagamento?

— Uma corrida. Quem chegar primeiro, toma o prêmio.

— Eu não tenho velocidade para vencer atletas — rebateu Emmi, cética.

— Não é esse tipo de corrida, Emmi. É uma prova de resistência e força interior. E, pelo que vi ao arrastar aquele trenó por dez quilômetros na neve, você tem isso de sobra. Então... você entra no jogo?

Emmi fechou os olhos por um segundo. Viu o rosto do irmão, a dívida impagável e o destino cruel que os aguardava se ficasse parada. — Eu aceito — disse, a voz trêmula de medo, mas carregada de esperança.

Nia levantou-se com agilidade. — Ótimo. Vou preparar um chá enquanto aguardamos as coordenadas do encontro.

Minutos depois, Nia retornou com duas xícaras fumegantes. O calor do chá parecia o primeiro conforto que Emmi sentia em anos. Ela deu um gole profundo, sentindo o líquido aquecer seu peito. No entanto, o alívio durou pouco.

Subitamente, as paredes da sala começaram a ondular. Suas pálpebras tornaram-se pesadas como chumbo e o mundo ao redor perdeu o foco. Emmi mal conseguiu pousar a xícara na mesa antes que seus músculos desfalecessem. Ela desabou no sofá, a consciência fugindo por entre os dedos.

Nia aproximou-se, segurando o rosto da jovem com uma delicadeza quase cruel, e sussurrou em seu ouvido:

— Bem-vinda ao jogo, Emmi.

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