O Quadrante Norte: Sombras na Caverna




O vento cortante uivava entre os picos, mas para Emmi, aquele som era quase uma canção de ninar. Enquanto o grupo avançava, ela parou por um instante para observar o horizonte, onde um pôr do sol sangrento tingia a neve de laranja e púrpura. Era uma beleza cruel, o prelúdio de uma noite que prometia ser fatal.

Sorenson aproximou-se, as botas esmagando o gelo com confiança. Uma risada curta escapou de sua barba ruiva. — Parece que a sorte sorriu para nós, finlandesa — disse ele, o hálito formando nuvens brancas no ar. — Você da Finlândia e eu da Noruega... este gelo está no nosso sangue. Estamos em casa.

Emmi retribuiu com um sorriso contido, mas seus olhos logo se desviaram para o resto da equipe. — Nós dois, talvez. Mas olhe para o Sami. O deserto não o preparou para isso. Se a temperatura cair mais dez graus, o medo vai paralisá-lo antes que o frio o faça.

Yuki Tanaka juntou-se a eles, ajustando a mochila com precisão militar. Seu olhar era prático e urgente. — Precisamos de um abrigo agora. O crepúsculo nas montanhas é curto, e não pretendo descobrir o que acontece aqui quando a escuridão total chegar.

Sorenson soltou um grito que ecoou pelo vale: — Alguém avistou algum lugar para passarmos a noite?

O silêncio foi a única resposta, interrompido apenas pelo bater de dentes audível de Sami. Klaus Meyer, ofegante e com o rosto cada vez mais arroxeado pelo esforço, tentou confortar o rapaz egípcio. — Calma, garoto — disse Klaus, forçando um sorriso entre as lufadas de ar. — A neve só mata quem desiste dela. Continue movendo os pés.

Caminharam por mais trinta minutos sob a luz moribunda do dia. Quando a exaustão começou a vencer a disciplina, Sorenson parou bruscamente em um platô exposto. — Chega. Vamos acampar aqui mesmo.

— Ficou louco? — A voz de Emmi estalou como um chicote. — Jamais ficaremos em campo aberto. Sem proteção contra o vento, seremos picolés antes da meia-noite. Sem contar os predadores que podem estar à espreita.

— E onde a "bonitinha" sugere que a gente durma? No luxo de um hotel? — desdenhou Sorenson, a irritação crescendo.

— Há uma caverna. Trezentos metros à esquerda, atrás daquela saliência — a voz de Aleksei Volkov surgiu do nada, vinda de onde ele observava o terreno em silêncio.

Sorenson virou-se para o russo, a fúria faiscando nos olhos. — E você só fala isso agora, seu desgraçado?

Aleksei não se abalou. Seus olhos felinos sustentaram o olhar do norueguês com uma indiferença gélida. — Eu não discuto com amadores. Vou me abrigar. Aqueles que preferem a vida ao orgulho podem me seguir.

Sem esperar resposta, o russo deu as costas e começou a caminhar em direção à rocha. Sorenson fechou os punhos, os tendões do pescoço saltando, mas antes que pudesse avançar contra Aleksei, Yuki tocou seu braço com firmeza.

— Guarde essa energia para o gelo, Sorenson. Não precisamos de cadáveres no primeiro dia. Vamos para a caverna.

Contrariado e bufando de ódio, o norueguês cedeu. O grupo seguiu a silhueta solitária de Aleksei pela penumbra da neve, mergulhando na boca escura da montanha enquanto a primeira estrela da noite surgia no céu gelado.

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