A Fronteira do Desespero
O sol de Tijuana não apenas aquecia; ele pesava. Dois dias haviam se passado desde que Diego Ruiz abandonara o mofo do motel para se lançar nas estradas poeirentas rumo ao Norte. Cada sombra no acostamento parecia o cano de um fuzil do cartel; cada motor ao longe soava como o prenúncio de sua execução. A paranoia era um gosto amargo e constante em sua boca seca.
Exausto, faminto e com os nervos em frangalhos, Diego viu a noite cair sobre a linha que divide os mundos. A fronteira com os Estados Unidos brilhava à distância, uma miragem de arame farpado e holofotes. Ele não dormia havia 48 horas. Quando o delírio do cansaço começava a nublar sua visão, uma caminhonete surrada reduziu a velocidade ao seu lado.
Ao volante, um rapaz magro, de pele parda e cabelos emaranhados, ostentava uma barba por fazer e um olhar astuto.
— Ei, amigo. Vai tentar a sorte na fronteira? — perguntou o motorista.
Diego não respondeu. Manteve o passo, a mão instintivamente fechada em punho.
— Parceiro, a pé você não chega nem no portão. Os gringos vão rir da sua cara antes de te jogarem de volta na lama — insistiu o rapaz, seguindo-o lentamente.
— E por que você me ajudaria? — Diego parou, os olhos injetados de sono fixos no desconhecido. — Vai me entregar para os Truenos? Não sou otário.
O rapaz soltou uma risada curta, batendo no volante.
— Se eu fosse do cartel, já teria estourado sua cabeça e levado a recompensa. Eu não dividiria o prêmio com ninguém, cabrón. Sobe aí.
Havia uma lógica brutal naquela fala. Diego, sem forças para discutir com o destino, subiu na cabine.
— Agora, deixe a magia acontecer — disse o rapaz, acelerando rumo à linha de controle.
Na guarita, o motorista desceu e trocou palavras baixas com um oficial. Diego mantinha a mão na maçaneta, pronto para saltar e correr para a escuridão. Mas o rapaz voltou com um sorriso vitorioso.
— Tudo certo. O oficial é meu parceiro. Disse a ele que você está comigo para uma conferência comercial. Ah, esqueci de me apresentar, Diego. Prazer, Esteban Marquez.
O nome atingiu Diego como um soco. O sangue fugiu de seu rosto.
Esteban acelerou, deixando as luzes da fronteira para trás. O silêncio na cabine era denso, quebrado apenas pelo chiado do rádio e pela respiração pesada de Diego.
— Como você sabe meu nome? — Diego rosnou, o corpo tenso como uma mola. — Eu não disse nada. Eu não te conheço.
Esteban soltou uma risada nasalada, sem tirar os olhos da estrada escura.
— Diego Ruiz, o prodígio das criptomoedas que virou o alvo número um dos Los Truenos. Você é uma celebridade no submundo, amigo. Só não é uma celebridade muito sortuda.
Diego sentiu um calafrio. A mão direita buscou a maçaneta, mas Esteban travou as portas com um clique seco.
— O que você quer de mim? — a voz de Diego falhou. — Você faz parte do cartel? Se veio me cobrar, eu não tenho nada. Eles levaram tudo.
— O cartel? — Esteban fez uma careta de desdém. — Aqueles carniceiros não têm visão. Eu trabalho para algo muito maior. E não, eu não quero seu sangue. Eu quero te oferecer uma saída.
Diego inclinou-se para frente, a paranoia dando lugar a uma ponta de esperança desesperada.
— Uma saída? Como? Você vai pagar a minha dívida? Vai limpar meu nome com o cartel? — Ele disparou as perguntas, os olhos fixos no perfil de Esteban. — Se você tem esse tipo de influência, por que me ajudaria? O que eu tenho que te dar em troca?
Esteban virou o rosto levemente, um sorriso de orelha a orelha rasgando sua face sob a luz fraca do painel.
— Eu não vou pagar um centavo para aqueles animais, Diego. Quem vai pagar é você. Eu só vou te dar a ferramenta para isso. Quem você acha que deslizou aquele bilhete por baixo da sua porta no motel? Quem te deu o cartão da bússola?
Diego olhou para o cartão preto em sua mão, as peças do quebra-cabeça se encaixando com uma força brutal.
— Foi você... — sussurrou Diego.
— Fui eu. Eu te dei o endereço, mas você preferiu brincar de maratonista no deserto. Tive que vir buscá-lo antes que os Truenos fizessem um churrasco com você.
— E qual é a pegadinha? — Diego insistiu, o instinto de negociador voltando à tona. — Ninguém salva um homem morto sem querer algo em troca. Qual é a sua proposta?
— Um jogo, Diego. — Esteban reduziu a velocidade, tornando o tom de voz quase solene. — Uma competição de resistência física e mental. O prêmio? Meio bilhão de pesos. O suficiente para você pagar o cartel, comprar uma identidade nova e ainda viver como o rei que costumava ser na Cidade do México ou onde quer que estivesse escondido.
— Meio bilhão... — Diego repetiu o número, a mente calculando as possibilidades.
Diego olhou para a escuridão da estrada americana. A liberdade tinha um preço alto demais.
— Eu topo — respondeu, a voz rouca.
— Perfeito. — Esteban tateou o banco de trás e entregou uma garrafa de água gelada. — Beba. Você parece estar morrendo de sede.
Diego virou a garrafa, sentindo o líquido descer rasgando a garganta seca. Em segundos, porém, o mundo começou a girar. O volante, a estrada e o rosto debochado de Esteban foram sumindo em uma névoa negra.
— Não se preocupe — Esteban murmurou, observando o ex-magnata apagar no banco do passageiro. — Eu te levo até o local. Bem-vindo ao jogo, Diego.
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