Maré Morta
Curuçá, Pará — Brasil
No interior do Pará, Mariana Ribeiro, aos 29 anos, carregava o peso de uma vida esculpida pela sobrevivência. Baixa e robusta, possuía braços e pernas temperados pelo esforço das canoas; sua pele parda e os cabelos cacheados, sempre presos em um coque alto, eram moldados pelo sol e pelo sal. Seus pés calejados pareciam garras que entendiam a lama e o chão firme com a mesma intimidade.
A guerra de 2067 não cruzara as fronteiras brasileiras com bombas, mas com a fome. O colapso global disparou o preço dos alimentos, transformando a fartura do Norte em escassez. Mariana, que já perdera dois de seus quatro filhos para as tragédias da miséria, vivia agora em um isolamento forçado, enviando o pouco que conseguia para os outros dois, criados pelos avós em Belém. Sua rotina era um ciclo de lama e silêncio nos manguezais, catando caranguejos e mariscos para garantir o sustento mínimo.
Em uma manhã de céu pesado, o sorriso raro de Mariana surgiu ao observar cinco crianças brincando nas águas do rio. Ela seguiu adiante, remando até seu ponto de coleta, mas a paz durou pouco. Ao saltar da canoa e afundar os pés no mangue, o cheiro de morte a atingiu. Dezenas de caranguejos jaziam imóveis na lama negra. O pressentimento ruim a fez recuar imediatamente.
Ao retornar rio acima, o horror se confirmou. No local onde as crianças brincavam minutos antes, agora restavam apenas corpos pequenos e inertes na margem. O desespero subiu pela garganta de Mariana, mas antes que pudesse gritar por socorro, a figura de um homem surgiu entre as árvores. Negro, com cerca de 60 anos e um chapéu de palha que sombreava o rosto, ele parecia brotar da própria floresta.
— O rio morreu — disse o homem, a voz rouca e calma. — Eles beberam a água. Logo, toda a vida marinha será veneno, e sua fonte de renda, que já era pouca, desaparecerá.
Mariana engoliu em seco, paralisada pela brutalidade daquelas palavras. Antes que ela pudesse reagir, o barqueiro estendeu a mão, entregando-lhe um cartão. No centro, brilhava a gravura de uma bússola dourada; no verso, apenas um endereço.
— Você só tem uma saída se quiser sobreviver a este tormento — continuou o velho. — E, quem sabe, recuperar o direito de viver com seus filhos.
Ele deu um passo atrás, fundindo-se à vegetação, mas parou para um último aviso:
— Quando chegar em casa, lave-se bem e queime essas roupas. Se não o fizer, terá o mesmo destino desses meninos.
O homem desapareceu na densidade do mato. Sozinha com o silêncio dos mortos e o cartão entre os dedos trêmulos, Mariana remou de volta para casa, sentindo que o mundo que conhecia acabara de desmoronar.
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