Das Ruinas a Esperaça
O calendário marcava 2077, mas as cicatrizes de 2067 ainda ardiam. Apenas uma década havia se passado desde que a Terceira Guerra Mundial lançou as nações em um abismo de colapso e desigualdade profunda: de um lado, a opulência obscena dos que tudo tinham; do outro, a miséria absoluta daqueles que afundavam na lama. Como se o conflito humano não bastasse, a Terra reagiu com fúria. Fenômenos extremos tornaram-se o novo normal: terremotos dilaceravam o solo, furacões varriam o que restava das cidades e o clima oscilava entre invernos implacáveis de -75ºC e calores sufocantes que atingiam os 58ºC. Sobreviver era um fardo. Sem sorrisos ou esperança, as pessoas tornaram-se sombras de si mesmas, agindo por instinto animal na busca desesperada por migalhas de comida ou moedas. A humanidade parecia condenada, mas para um seleto grupo de escolhidos, o destino estava prestes a ser reescrito.
Finlândia, quatro dias antes do convite...
Na gélida e remota Pokka, os irmãos Emmi e Mark Khomalain eram sobreviventes de um mundo que os esquecera. Dez anos antes, a capital, Helsinque, fora o palco de uma vida vibrante, interrompida brutalmente pela guerra que lhes roubou os pais e a inocência. Fugindo para o interior, Mark, então com 20 anos, assumiu o peso do mundo nos ombros para proteger Emmi, que tinha apenas 14. Durante uma década, ele sobreviveu cortando lenha para os vilarejos vizinhos, lutando contra o frio e a escassez para manter o que restava de sua família unido.
O corpo, porém, cobra seu preço. Sob o machado e a neve, Mark desabou. O silêncio da demora alertou Emmi, que o encontrou inerte. O desespero, frio como o gelo ao redor, a impulsionou: sem médicos por perto e com as comunicações em ruínas, ela o amarrou a um trenó de neve, arrastando-o por dez quilômetros de isolamento até o posto médico mais próximo.
O diagnóstico inicial fora um golpe seco: uma condição neurológica grave que o levaria à morte sem uma intervenção imediata. No corredor estéril, o alívio que Emmi sentiu ao saber que a operação fora um sucesso durou apenas alguns instantes. Logo, a realidade a atingiu novamente. 'A cirurgia salvou a vida dele hoje', sentenciou a enfermeira, com a voz carregada de uma fria praticidade, 'mas ele tem uma doença degenerativa. A sobrevivência dele, de agora em diante, dependerá de medicamentos caríssimos. Para sempre.'
O chão pareceu sumir sob os pés de Emmi. Como pagar por uma vida em um mundo sem dinheiro? Horas depois, enquanto velava o sono pesado de Mark no quarto, uma figura desconhecida cruzou a porta. Era uma enfermeira que ela ainda não vira no hospital. Com passos silenciosos, a mulher aproximou-se:
— Emmi Khomalain, creio que esteja enfrentando um momento impossível — disse a desconhecida.
Emmi, com os olhos vermelhos e a garganta seca, não conseguiu articular palavra. A mulher continuou, a voz desprovida de emoção:
— As contas do hospital e o custo da medicação são uma sentença de morte para quem não tem recursos. Tenho uma proposta a fazer. Se tiver interesse, encontre-me na praça em frente ao hospital.
Sem revelar o nome, a mulher saiu, deixando o silêncio e um fio de esperança perigosa pairando no ar.
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