O Crepúsculo do Chamado
Pokka, Finlândia
A tarde em Pokka não trazia luz, apenas uma tonalidade cinzenta e um frio que parecia perfurar as paredes do hospital. Sentada ao lado do leito onde Mark dormia um sono pesado e artificial, Emmi sentia a mente estilhaçar. As contas médicas acumulavam-se como uma avalanche inevitável, e a proposta daquela mulher misteriosa ecoava em seus pensamentos. Entre o medo e o desespero, a necessidade venceu.
Emmi ajustou o cachecol bege, respirou fundo e saiu para a praça em frente ao hospital. O vento cortante de -40ºC castigou seu rosto no instante em que pisou fora. Ela olhou ao redor, os olhos buscando a figura da enfermeira entre as árvores secas e os bancos cobertos de neve, mas a praça parecia deserta. O silêncio era interrompido apenas pelo assobio do vento.
— Pensei que não viria — uma voz firme cortou o ar.
Emmi sobressaltou-se. Ao virar-se, encontrou a mulher, mas o uniforme branco sumira. Em seu lugar, uma figura imponente, de postura atlética e cerca de $1,70m$, vestia roupas táticas escuras que pareciam ignorar o gelo ao redor. Era uma mulher negra de traços marcantes e olhos castanhos que brilhavam com uma inteligência perigosa.
— Eu não estava disposta a congelar esperando por um fantasma — retrucou Emmi, com um sorriso amargo de canto.
— Prazer. Meu nome é Nia — disse a desconhecida, estendendo a mão enluvada. — E, como você já percebeu, não sou enfermeira.
O choque atingiu Emmi. A mentira era um sinal de alerta claro. Ela recuou um passo, ajeitando o cachecol com mãos trêmulas.
— Se você mentiu para entrar no hospital, não vejo motivos para ouvir o que tem a dizer. Estou fora.
Emmi deu as costas, disposta a retornar ao calor sufocante do hospital, mas Nia não se moveu. Apenas estendeu o braço, segurando um cartão preto com uma bússola dourada que reluzia sob a luz fraca dos postes.
— Pegue o cartão, Emmi. Se decidir aceitar, vá ao endereço no verso. Garanto que não se arrependerá. Há mais dinheiro em jogo do que você seria capaz de contar em uma vida inteira de trabalho braçal.
Emmi hesitou, mas a imagem do irmão no leito venceu o orgulho. Ela pegou o cartão com um olhar severo, sem dizer uma palavra, e atravessou a rua de volta ao hospital. Nia permaneceu imóvel na praça, observando a silhueta da jovem desaparecer através das portas de vidro. Um sorriso sutil surgiu em seus lábios enquanto murmurava para o vento:
— Emmi, Emmi... logo você entenderá que não há outra escolha. Bem-vinda ao jogo.
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