O Preço da Piedade Filial




A viagem de Pequim a Yiyang foi um borrão de luzes distantes e silêncio. Dentro do táxi, Li Liang girava o cartão preto entre os dedos, a bússola dourada captando os reflexos dos postes de luz. Quem era aquele homem no tribunal? Um aliado de seu pai, um abutre da imprensa ou algo muito mais perigoso? Ao chegar em seu apartamento — um espaço pequeno, mas mantido com a ordem rigorosa de um templo —, Li buscou no banho uma forma de lavar o peso da injustiça que presenciara.

Ao adormecer, a exaustão o traiu. O sonho começou com o calor das memórias de infância, o riso de seu pai, Li Wei Jun, sob o sol de outrora. Mas o cenário apodreceu subitamente: guardas sem rosto arrastavam seu pai para o pátio de execução enquanto o riso gélido de Zhi Tao ecoava pelo vazio. Li acordou num solavanco, o suor frio colando o lençol ao corpo. Seus olhos caíram sobre o cartão no chão. O endereço era próximo, a meros quinze minutos de caminhada.

Vestiu-se com a rapidez de quem se prepara para o combate e ganhou a madrugada chinesa. As ruas de Yiyang estavam desertas, envoltas em uma névoa que parecia abafar o som de seus passos leves. Ao chegar ao prédio indicado, o portão abriu-se antes mesmo que ele batesse — um convite silencioso e vigiado.

No segundo andar, a porta abriu-se para revelar o homem do tribunal. Seu terno preto permanecia impecável, como se o tempo não ousasse amarrotá-lo.

— Li Liang. Imaginei que o pesadelo o traria antes do amanhecer — disse o homem, gesticulando para que entrasse. — Entre.

Li analisou o ambiente com um único olhar periférico, identificando saídas e pontos cegos.

— Meu nome é Jun Shi — apresentou-se o anfitrião, estendendo uma mão que Li não apertou de imediato. — Tenho uma proposta que pode comprar os melhores advogados do continente e arrancar seu pai das garras daquela prisão.

— Que tipo de proposta? — a voz de Li era um fio de aço.

— Um jogo. Uma prova onde seu maior adversário será sua própria mente.

— E o prêmio? — Li foi direto ao ponto.

— Meio bilhão de Yuan — Jun Shi sorriu, um gesto que não alcançava seus olhos calculistas. — Limpos. Sem impostos ou perguntas.

— Em que consiste esse jogo?

— Digamos que você fará uma longa caminhada, Li. Uma jornada de resistência. Você aceita o desafio ou prefere deixar o carrasco decidir o destino de seu pai?

Li Liang pesou o silêncio por um segundo. A honra exigia o sacrifício.

— Eu aceito.

— Excelente. O jogo começa agora. Siga-me.

Para a surpresa de Li, uma limusine negra os aguardava na saída, um monstro de metal brilhante em meio à decadência da rua. No interior luxuoso, Jun Shi serviu duas taças de champanhe.

— Vamos celebrar o início de sua nova vida — disse Jun, entregando o cristal a Li.

Li, movido por uma sede que vinha da alma, bebeu o líquido efervescente.

— Então, Li... — Jun Shi começou a dizer, mas a voz dele tornou-se um eco distante.

A visão de Li Liang embaçou violentamente. A taça escorregou de seus dedos, estilhaçando-se no tapete da limusine. Ele tentou balbuciar um protesto, mas o corpo, antes tão obediente, tornou-se chumbo. Enquanto Li mergulhava em um sono artificial e profundo, Jun Shi completou a frase com um sussurro gélido:

— ...bem-vindo ao jogo.

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