O Quadrante Leste: Miragens de Sangue



A porta do contêiner deslizou para cima, revelando uma parede de calor seco que parecia sólida. Diante da Equipe Leste, não havia nada além de um oceano de areia fina e dunas que ondulavam até o infinito, sob um sol que já nascia castigando o horizonte. Diego Ruiz, com os nervos em carne viva, não esperou por ordens. Ajustou a mochila e começou a caminhar sozinho, querendo colocar distância entre ele e qualquer um que pudesse traí-lo.

— Ei, grandão! Somos uma equipe, lembra? — uma voz juvenil e aguda quebrou o silêncio do deserto.

Diego parou e olhou por cima do ombro. Era Lin Po, um chinês de apenas 19 anos. Magro, com óculos de armação grossa que escorregavam pelo nariz, ele parecia um estudante de engenharia perdido em uma excursão que deu errado.

— Vou sozinho — rosnou Diego, a voz rouca pela sede e pela falta de sono.

— Se for sozinho, vai morrer antes do meio-dia — interveio uma mulher de pele curtida pelo sol e cabelos cor de areia presos em um rabo de cavalo prático. Era a australiana Sarah Jenkins, de 40 anos. Seus olhos, estreitados pelas rugas de expressão, vasculhavam o horizonte com a autoridade de quem conhece a vastidão.

— Deixe-o em paz — cortou Olga Petrova, uma ucraniana de 31 anos, cujos braços musculosos exibiam manchas de graxa permanentes sob as unhas. Ela limpou o suor da testa com um lenço, o olhar direto e frio. — Se ele quer ser o primeiro a virar carcaça de urubu, o problema é dele. Sempre há um desgarrado que se acha mais esperto que o grupo.

Diego voltou-se para os cinco, a fúria e a paranoia brilhando em seus olhos. — E por onde vocês pretendem começar? — gritou, gesticulando para o vazio absoluto. — Só tem areia para todos os lados! Se duvidar, todos vocês já estão mortos, só ainda não perceberam!

— Eu não teria tanta certeza — disse Benjamin Zulu, um atleta de 23 anos com um físico impecável. Sua pele negra retinta brilhava sob o sol, e ele era o único que parecia não sentir o peso do equipamento ou o calor crescente. — Se você estivesse prestando atenção, saberia que o jovem Lin Po é um calculista nato. Ele sabe ler a bússola e o terreno melhor do que qualquer um aqui. Ele é o nosso mapa.

— E digo mais — acrescentou Ahmed Mansour, o árabe de 50 anos, mantendo uma elegância aristocrática mesmo vestindo o uniforme comum do jogo. Suas mãos finas nunca haviam pegado em peso, e seu olhar de superioridade tentava, sem sucesso, esconder o pavor de ter perdido o poder. — As instruções foram claras: devemos cuidar uns dos outros. A solidão no deserto é o caminho mais curto para a loucura.

Diego sentiu o peito arfar. Na sua mente, cada palavra de Ahmed parecia uma armadilha, cada olhar de Olga uma faca pronta para ser cravada em suas costas. A paranoia, cultivada nos becos de Tijuana, soprava mais forte que o vento do deserto.

Olga ignorou o surto de Diego e voltou-se para o rapaz de óculos. — Para onde, Lin?

Lin Po respirou fundo, consultou a bússola dourada e apontou para o sol nascente. — Para o Leste. Temos que contornar as dunas altas até as instalações industriais abandonadas.

Sem olhar para trás, os cinco começaram a caminhar em formação, as botas afundando ritmicamente na areia quente. Diego ficou parado, vendo as silhuetas diminuírem na imensidão. O silêncio do deserto caiu sobre ele como uma lápide. De repente, a força que o impulsionava desapareceu.

Ele caiu de joelhos na areia escaldante, levando as mãos à cabeça em um gesto de puro desespero. O horizonte parecia fechar-se sobre ele. Sozinho, ele era apenas um alvo; com o grupo, ele era um traidor em potencial. Entre o medo da morte e o medo das pessoas, Diego Ruiz perguntou ao vento o que seria de sua vida dali para frente, enquanto a primeira miragem de calor começava a dançar diante de seus olhos.

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