O Quadrante Sul: O Grupo Partido



A lama agora atingia os joelhos, transformando cada passo em uma batalha contra a sucção do lodo. O ar estava saturado de umidade e do zumbido incessante de insetos invisíveis. Amara Diop parou, tentando encontrar um ponto fixo em meio ao emaranhado de raízes aéreas, o suor escorrendo pelas tranças.

Julian Vance não perdeu a oportunidade. O sorriso de dentes brancos fora substituído por uma careta de impaciência. — Parece que a "líder" não sabe para onde ir. Cadê a bússola que você recebeu? — O tom de arrogância dele cortou o ar como um chicote.

— Você quase morreu ao sair do contêiner por pura estupidez — retrucou Amara, os olhos faiscando de fúria. — Por acaso você se sente o mais preparado para guiar alguém aqui?

Enquanto o embate de egos fervia, a retaguarda do grupo sofria em silêncio. Mateo Rossi, ofegante, lutava para arrastar as pernas pesadas, os olhos fixos no chão para não tropeçar em raízes submersas. Mariana Ribeiro, percebendo o cansaço do italiano, recuou para ficar ao lado dele e de Arjun.

— Precisamos descansar — sugeriu Mariana, a voz suave, mas firme. — Se continuarmos nesse ritmo sob o sol, ninguém dará mais um passo antes do anoitecer.

— Você tem razão, Mariana — concordou Arjun, apoiando-se pesadamente em seu cajado. — Meus ossos velhos também clamam por uma pausa.

No instante em que Mariana levantou a cabeça para chamar o restante da equipe, o pânico a atingiu. Amara, Julian e Chloé haviam desaparecido. A densidade da vegetação os engolira em poucos minutos de distração.

— Amara! Julian! — gritou Mariana, embrenhando-se no mato espesso e no lodo.

O silêncio foi a única resposta, abafado apenas pelo coaxar distante de sapos. Ela retornou para junto de Mateo e Arjun, o rosto pálido de tensão. — Eles sumiram. Não respondem.

— Não se aflija, Mariana — disse Arjun, com uma calma que parecia sobrenatural naquele inferno verde. — De agora em diante, você nos lidera.

— Eu? Mas... eu não sei fazer isso! — Mariana recuou, assustada com a responsabilidade.

— Você sabe, sim — Arjun sorriu, os olhos cheios de uma sabedoria ancestral. — Eu observei como você se move. Seus pés conhecem o segredo deste lugar. Você é a única preparada para nos tirar daqui.

Mariana respirou fundo, fechando os olhos por um segundo. Lembrou-se dos mangues de Curuçá, do cheiro da maré e de como a natureza fala com quem sabe ouvir. — Tudo bem. Vamos encontrar um abrigo para a noite. Se ficarmos expostos, o que rasteja por aqui nos encontrará primeiro.

Enquanto o trio de Mariana buscava segurança, Amara, Julian e Chloé mergulhavam cada vez mais fundo na selva de lodo. Chloé Dubois foi o primeiro a notar o vazio atrás de si. O pânico subiu por sua garganta. — Pessoal! Cadê o resto do grupo? Onde estão o velho e o italiano?

— Não se preocupe com eles — desdenhou Julian, sem sequer olhar para trás. — Só iriam nos atrasar. Melhor assim, sobra mais do prêmio para nós.

— Ficou louco? — Amara parou bruscamente. — As regras eram claras: deveríamos cuidar uns dos outros. Como vamos encontrá-los neste labirinto?

— Para que esse drama? — Julian soltou uma gargalhada sarcástica, exibindo sua bússola dourada. — Todos temos bússolas. Se continuarmos para o Sul, nos encontraremos no centro da ilha. Meio bilhão de reais, Amara! Meio bilhão! Vamos andando antes que a noite nos pegue.

Amara olhou para Chloé; ambos respiraram fundo, sentindo o peso daquela decisão errada. Sem alternativa imediata e movidos pela ganância de Julian, o trio fragmentado continuou a caminhada, sem perceber que a escuridão do pântano traz perigos que bússola nenhuma pode prever.


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